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Tuesday, August 19, 2003

Crônica de Simone Ostrowski publicada no Jornal da Tarde (Brasil,18/11/2000)


Mistérios do sexo

"A sexualidade é um mistério, não um hambúrguer", disse recentemente Jeanne Moreau, grande dama do cinema francês, certamente mais habituada aos mistérios do que ao fast food.

Sou uma jovem cronista que de Jeanne só viu Jules et Jim (Uma mulher para dois). Li a frase num jornal francês, a definição desdenhosa de uma mulher de outra época, de uma elegância distante e altiva. E concordo, como se minha fosse.

A constatação de Guillebaud, em La Tyrannie du Plaisir (A Tirania do Prazer), é clara: nenhuma sociedade antes da nossa consagrou à sexualidade um papel tão preponderante, uma invasão tão febril. E prossegue relembrando que Bataille e Breton morreram temendo uma exaustão do desejo, enfraquecido de tão desencantado, a ponto de tornar necessário um dilúvio de palavras e imagens para manter vivo esse desejo extenuado. Uma tirania que substitui outra.

Que antigas tiranias tenham sido derrubadas não significa que a via escolhida não guarde suas armadilhas e suas novas formas de servidão, ou seus modos ardilosos de nos manter inconscientes sobre a vida oculta dos desejos e suas grandes implicações. Platão considera o desejo uma fera multiforme e policéfala. Contempla-se aqui uma de suas subespécies, tão eloqüente na revelação de nossa vida interior quanto as outras.

Tanto falta quanto excesso, o desejo é um grande revelador.

Seria preciso investigar melhor seus mecanismos subterrâneos.

A sexualidade é um mistério com intrincamentos profundos na psique em suas luminosidades e seus aspectos mais sombrios. Questões graves como a pedofilia vão dar,no fundo, na grande questão do mal; sombras tanto extravasadas quanto alimentadas pela permissividade ambiente nas imagens e no discurso. Fora isso, há formas mais brandas de corrupção, violência e humilhação que provocam danos via de regra mal explorados e mal reconhecidos. A própria ausência do mistério é uma delas.

"Nós não atentamos para o fato de que esse terrível face a face do casal ocidental, desprovido de pudor e de contenção, é profundamente um destruidor da relação amorosa, do desejo e de toda relação", diz Philippe Engelhard em L'Homme Mondial (O Homem Mundial).

O desejo se nutre de interditos, é bem sabido.

E esse excesso de revelação, precisamente, não se conjuga tão bem com a complexidade das instâncias secretas do desejo quanto o mistério, a sutileza e a distância reverente.

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